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07/06/2009. HELIO RODRIGUES
Certamente estamos vivendo um tempo muito veloz, onde se cultua com muita pressa o que é ágil, belo, dá prazer e não aborrece. Descartamos rapidamente um objeto de nossos desejos, não por já ter sido realizado mas por que já fomos dominados por um novo momento que a globalização trouxe e que a tudo irá devorar. Vivemos a era uma era “fake”, a valorização do falso e de um tempo fugaz. Certa vez, enquanto esperava pela chegada do meu assistente para me auxiliar na instalação de uma escultura em um jardim de uma cas, resolvi passear pelos seus espaços em final de obras. Em algum momento cheguei num grande hall, ainda com cheiro de tinta e parei para observar o lustre recém instalado. -Gostou? Me surpreendeu a decoradora. -Bonito Murano! eu disse. .-Sim, é um legítimo "Fake". -Como assim, "fake"? "fake" de “falso”? - Isso não é cristal... é resina meu querido! Mas não vamos desfazer da peça, não é mesmo? Convenhamos... "fake" tem melhor potencial aos ouvidos dos clientes...um certo “glamour”. Acho que somos facilmente devorados pelos modismos, porque abrimos um enorme buraco em nossa cultura por conta de nossa já característica visão auto-subestimada de povo terceiro mundista. Para disfarçar a pecha, estamos consumindo freneticamente, como fazem nossos ídolos americanos. Adotar o que “parece ser”, mas que na verdade não é, se tornou uma atitude previsível, se considerarmos o “mudei de ideia”, " não quero mais" como um comportamento valorizado pela mídia, até porque há promessas de que assim estaremos inseridos na sociedade contemporânea. Porque ser verdadeiro, se eu posso me alimentar com a ilusória sensação de liberdade que prega o efêmero e o descartável como conquista de felicidade? Por que querer o verdadeiro hoje, se provavelmente eu vou descartá-lo amanhã. Afinal, a rapidez da mídia a qualquer momento irá raptar meu desejo, transformá-lo em algo ultrapassado e em seu lugar me apresentar um novo com promessas de prazer e atualização da sensação de poder e de inserção social? Em muitos momentos tenho a impressão de que o que nos resta são mesmo os resíduos, as falsas impressões que nem ao menos nos damos conta de que esse é que tem sido o nosso alimento. Há um poder controlador que nos autoriza e estimula a brincar um pouco com falsas impressões, antes delas perderem o encanto e irem para o lixo. É desolador esse quadro. Acredito que só o exercício da opinião oferecido pelo pensamento e a arte pode nos levar a revê-lo e em seguida promover atitudes capazes de modificá-lo. A consciência de que somos indivíduos criativos e a prática dessa potencialidade tão característica do ser humano pode dar inicio a esse processo de revisão de conduta. Certa vez, estava eu sentado num canto do atelier de um projeto que coordeno e, cansado, sonhava em ir embora mais cedo. Chegaram os alunos e entre eles um menino de 10 anos todo animado me dizendo: - Helio! Eu trouxe comigo um pouco daquela massa mágica, lembra? Sobrou no meu bolso daquela ultima aula. Faz de novo com a gente aquele exercício? Por que, durante a semana eu pensei nele e fiquei cheio de idéias novas! - Tá certo, (eu disse). Mas pra fazermos de novo hoje o exercício vamos mesmo ter que usar a sua massa, porque a minha eu deixei lá em casa ou emprestei pra alguém... não me lembro mais. Reunimos então o grupo num grande círculo e demos inicio ao exercício, no qual imaginamos ter entre nós uma massa mágica e com ela somos capazes de produzir pantomímicamente qualquer coisa que em seguida vamos passar para o colega ao lado. Os resultados foram surpreendentes, a massa invisível tomou formas as mais particulares e variadas, conforme o imaginário era passado de mão em mão. A tal efemeridade nesse caso não ia embora com os objetos, deixava seus mais importantes resíduos, a ampliação da nossa imaginação e do nosso conhecimento. Mudei de planos, e fiquei até o final da aula.
Tags: arte-educação






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