Na Casa da Floresta a tabuada é música e o caderno uma obra de arte Seguir o Blog!
24/03/2016. MARTA CERQUEIRA
Ainda não são nove da manhã e já se contam pelos dedos das duas mãos os miúdos que estão pendurados nas árvores. Nem a chuva miudinha desta semana os impede de aproveitar os últimos minutos antes do toque de entrada para desbravar ao ar livre as primeiras energias da manhã. Não estamos em nenhuma comunidade hippie do Alentejo, nem estas crianças são amostras de meninos da selva. Estamos, aliás, a 2,5 quilómetros de um monstro citadino chamado Colombo e a poucos metros de uma IC19 em hora de ponta. Eta espécie de oásis tem nome, filosofia e – desanime-se quem já só pensava na parte espiritual - horários, regras e mensalidades. Isto porque falamos de uma escola, com turmas que vão desde o Jardim de Infância ao 2.º ciclo, que respeitam as normas impostas pelo Ministério da Educação, mas cujo método de ensino fica a anos luz do tradicional. Aqui não existem manuais nem trabalhos de casa. Os cadernos não têm linhas nem quadrados, não existem computadores, nem nada que seja feito de plástico. Escreve-se a lápis de cera e as pinhas apanhadas no quintal transformam-se em carros ou casas na imaginação dos mais de cem alunos que enchem esta escola criada em 2004 por um grupo de pais descontente com o que encontrava no ensino regular. Rita Da Costa apanhou o comboio a meio, ou seja, não é fundadora, mas de mãe preocupada com a educação de um filho, acabou como diretora da Casa Verdes Anos. “Aqui encontrei tudo aquilo que procurava”, conta ao B.I., “desde a liberdade que é dada a cada criança, ao espaço espaço verde que envolve a escola, até ao cuidado com a alimentação”. Isto porque, nada que não seja biológico passa pelos grandes portões dos edifícios situados nos anexos do Palácio Marquês de Fronteira, em Monsanto. Além disso, as refeições são ovo-lacto-vegetarianas, evita-se o uso de açúcares refinados e é na escola que fazem o pão, as bolachas e as compotas dos lanches. “Eles acham mesmo que tudo o que lhes vem parar à mesa vem da horta do quintal”, conta Marta Cordeiro, encarregue dos mais pequenos, os primeiros a acreditar que são uns “anõezinhos” que vivem debaixo da terra que lhes dão todos os legumes do almoço. “Mesmo as cenouras mais raquíticas que às vezes nos calham”, brinca. Mas é recorrendo a anõezinhos, fadas e pós mágicos que, por exemplo, não é preciso ensinar nenhuma criança que não deve pisar as plantas do jardim. “Eles sabem como as coisas são feitas, foram eles que puseram as sementes e viram a planta crescer”, acrescenta. Todos estes pormenores que nos fazem repensar os 12 anos passados no liceu mais próximo de casa, são os pontos chave da pedagogia Waldorf, que tem como pilares fundamentais a filosofia holística, a responsabilidade social e a ligação com a natureza. “A criança é o ponto central”, explica Rita. Daí que todo o trabalho pedagógico seja direcionado para promover as potencialidades individuais de cada uma, através de princípios como a responsabilidade, a justiça, a generosidade e a tolerância. Mas chega de apresentações, até porque seja qual for a matéria, ganha muito mais piada quando posta em prática. Além disso, já são 9h e, apesar do caráter livre e criativo, os horários são para cumprir. “Desengane-se quem acha que aqui os miúdos fazem o que querem”, esclarece a diretora, “temos tantas ou mais regras do que as escolas normais”. E a primeira é evidente: guardar o telemóvel até que seja hora de ir embora. Aqui não entram tecnologias nem para tocar a campainha a que todos nos habituamos a seguir como ordem de entrada. Mas já lá vamos. [ ... ]
Tags: arte, educação, escola, liberdade, pedagogia Waldorf








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