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09/01/2017. HELIO RODRIGUES
Estimular uma criança a experiências opostas ao comportamento que até então parece defini-la é uma forma de ampliar suas competências e suas relações com ela mesma e com o mundo. Percebi a importância dos opostos com a arte. Nela, o diverso e os contrários são a grande força. Recusar é papel da censura. Sempre me disseram que cada um precisa desenvolver seu melhor lado. Acreditei nisso e me esforcei pra me construir com o que fosse considerado meu melhor. E lá fui eu tentando me equilibrar num só lado até descobrir a arte, me encantar e passar a depender dela pra viver. Não sou hiperativo, mas dificuldade de foco eu tenho. Mesmo assim passei a minha infância tentando focar nesse tal melhor lado que honestamente, até hoje não está muito claro. Mas, pensando bem, se a gente acha esse lado, faz o que? repete ... repete ... e assim parece que se livra dos conflitos. Mas não sei se crescemos com a lucidez que teríamos se lidássemos com nossos dois lados. Então, o que seria mais libertador para alguém que repete compulsivamente (ou quase) um mesmo comportamento? Na minha opinião, seria conseguir experimentar ou resgatar o seu oposto. Pela quase dependência que tem a arte, dos contrários e das utopias, ela é uma facilitadora das experiências com opostos. Portanto, bons resultados podem ser colhidos nos grupos de arte. O que não significa pensar que um tímido deva ser chamado para contar uma história, um hiperativo se coloque em posição de lótus e medite, um agressivo tenha a missão de desenhar flores e distribuir para as suas vítimas. Isso seria o mesmo que um enfadonho e inócuo discurso moral. Sugiro apenas que os educadores utilizem como atrativo uma atividade de arte que tenha início justamente pelo que já é conhecido e recorrente naquela criança. Em seguida, a mesma atividade que acenou com identificação passa a ter a sua continuidade baseada no seu oposto. Por exemplo: Para que uma criança considerada hiperativa tenha a experiência da calma, a atividade proposta, primeiro deve acenar com os atrativos que já são conhecidos da criança como: aceleração, velocidade, "tudo junto", impulsividade... que por identificação ela tende a se interessar. A seguir, essa mesma atividade, deve levá-la a conquistas que só possam ser realizadas com o exercício da calma, da atenção, da desaceleração, do controle... Não significa dizer que todas as propostas de arte tenham que iniciar aceleradas e terminar calmas. São também especialmente válidos os exercícios ou técnicas que tenham a alternância (aceleração, calma, aceleração...), porque a qualidade de qualquer atividade artística é ampliada quando é capaz de circular entre contrários. Tentando manter o meu foco nos hiperativos, o que não é muito fácil, acho importante pensarmos que muitas podem ser as causas para a falta de concentração que os caracteriza. Apesar de existirem muitas razões para o desenvolvimento desse sintoma, um forte colaborador pode ser a própria cultura contemporânea e sua relação com o tempo e o espaço. Vive-se o tempo do “pouco tempo”, do pouco espaço e da melhor “performance”. Para equacionar tempo, espaço e desempenho, um excesso de estímulos e expectativas vem sendo lançados sobre as crianças desde bem pequenas. Expectativas que muitas vezes até extrapolam os níveis de informação e capacidade de transformá-la em conhecimento, promovendo ansiedade e frustração. O livre brincar, por exemplo, perdeu espaço e tempo e foi substituído por atividades dirigidas com a justificativa do “melhor aproveitamento”. Dessa forma, o tempo, esse ingrediente que ajuda a reduzir os níveis de ansiedade, deixa de ser particular e diferente entre indivíduos, para se tornar uma marca olímpica para bater. Precisamos rever o tempo, não só o que fazemos com ele, mas também como apresentamos o tempo para as nossas crianças. A arte no universo infantil é de pouco falar e muito de experimentar e descobrir. Portanto a comunicação entre os educadores e as crianças se estabelece através da linguagem artística. E isso se dá, principalmente através de propostas. Entre as muitas escolhi 3 exemplos de atividades que têm uma intensa relação com o tempo:
1- Surgindo do escuro
Utilizando-se aleatoriamente lápis cera de várias cores, preenche-se o máximo possível, a superfície de um papel de desenho. Em seguida cobre-se com nanquim preto ou guache preto com a ajuda de um pincel, todo o papel encerado a lápis. Espera-se secar o nanquim e então com a ajuda de um palito de churrasco a criança desenha (risca) sobre o preto, deixando surgir assim as cores do lápis cera que estão debaixo.
Esta é uma boa atividade que tem inicio na “desordem” do rabiscar sem direção definida, com força e velocidades que podem variar e que se desenvolve em direção a uma ação mais ordenada e cuidadosa onde através da coordenação viso motora, formas vão sendo criadas e desenvolvidas. Além disso, ela tem inicio na livre rabiscação em múltiplas direções. Em seguida é “censurada” pelo próprio aluno, quando cobre com tinta preta a agitação promovida com lápis cera. No final as linhas criadas sobre o preto com uma ponta seca, fazem surgir de maneira mais organizada e valorizada as cores de lápis cera que haviam sido cobertas pelo preto.
2- Torno para cerâmica
A máquina em movimento é um grande atrativo, mas infelizmente difícil de ser encontrada em ambientes de arte-educacionais. Crianças hiperativas se identificam com o movimento circular dos tornos. A aparente “desordem” sugerida pelo movimento, só poderá dar forma ao pedaço de argila se for empregada uma ordem no processo. Afinal, para que se consiga construir algo com um torno de cerâmica, é necessário obedecer à uma estrutura ordenada de movimentos, ou seja, respeitar a ordem de uma seqüência puramente técnica, para que se consiga construir peças circulares. Portanto, o torno de cerâmica faz com que a criança experimente o caminho da desordem para a ordem, estimulando crianças à uma melhor organização do pensamento e dos movimentos.
3- Construção com linhas ao acaso
A ideia descompromissada de trabalhar pedaços de barbante, oferece também ao aluno um certo distanciamento da ordem. Além disso o foco sobre o processo é amplo e rápido, o que costuma favorecer os hiperativos. O espaço previamente limitado sobre o chão ou a mesa pode ser a única restrição. No momento da frotagem, o aluno é atraído pela proposta e passa a exercitar naturalmente o foco. Mais adiante é obrigado a se concentrar ainda mais, quando, conforme é proposto pela atividade, passa a criar através de intervenções na frotagem¹. ¹Frotagem: A palavra “frotagem” vem do francês "frotter", que significa “esfregar”. A técnica da frotagem consiste em colocar uma folha de papel sobre uma superfície que possua um relevo ou uma textura e esfregar com o material escolhido, pressionando-a até que apareça o relevo ou a textura.
Tags: arte-educação, cognição criativa, foco, hiperatividade, TDAH, transtorno de déficit de atenção






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