O espaço das falhas Seguir o Blog!
23/04/2010. HELIO RODRIGUES
A prática do seletivo que caracteriza a maioria das culturas faz exercitar constantemente em seus indivíduos, o pinçar de acertos e supostas qualidades especialmente nos meios que apresentam o diverso. Na nossa sociedade, “separar o joio do trigo” é um provérbio difundido popularmente e parece ocupar o lugar reservado para as chamadas “ações de qualidade”. Vale lembrar, que o provérbio indica que se coloque os diferentes em seus “devidos lugares”, junto com seus iguais. Critérios adotados pela moral vigente. Nos processos criativos e expressivos, dos quais sabemos a arte se constitui, a diversidade é um meio fértil, além de altamente estimuladora, portanto, qualquer forma de discriminação é uma ação contrária às conquistas positivas que esses processos podem produzir. Esses dois elementos: diversidade e vazio são importantes contribuidores para que se façam conquistas no campo criativo-expressivo, que por sua vez é responsável pela linguagem não formal. Em qualquer meio, seja social, afetivo, educacional ou profissional, em geral o muito explicar de um indivíduo, sugere uma tentativa de se acercar de defesas contra seus próprios “erros” ou promover os acertos do outro. Em ambos os casos, “joio e trigo” parecem ser proibidos de coexistência. Pinçam-se os acertos e desprezam-se os erros. Como a arte não necessita do exato, muito menos do homogêneo, propostas arte-educacionais tendem a ser interpretadas de variadas maneiras pelos alunos e essa diversidade de “respostas” precisa, antes de tudo, ser acolhida pelo professor. Também, um excesso de iniciativas verbais antes da ação artística propriamente, pode dirigir o aluno para a busca de “acertos”. Um exemplo comum, é o arte-educador que se excede em explicações para a sua proposta de aula. Além da insegurança profissional refletida, a conduta do muito falar tende a reduzir ou até mesmo impedir a existência de um importante espaço simbólico , que costumo chamar de “espaço do falho”. Nesse lugar impreciso e descomprometido, interpretações tão diversas quanto pessoais se desenvolvem, representam sentimentos e sensações; promovendo assim a linguagem não formal que caracteriza a arte. Sob o meu ponto de vista, é o espaço do falho que expele a diversidade de interpretações que um indivíduo pode dar a uma proposta, ou as derivações de certas resistências, ou até mesmo a ansiedade que por vezes faz atropelar uma proposta para se fazer expressar sobre algo premente. Ao se observar a produção artística de crianças e jovens, é comum se notar o interesse de alguns alunos por vulcões. Percebe-se que há uma estreita relação desse símbolo com a sexualidade, mas observa-se também, que a escolha desse objeto simbólico tende a acontecer no inicio, nos primeiros contatos do aluno com a arte, quando parece ocorrer a descoberta das potencialidades simbólicas do imaginário. Interessante pensar que, geologicamente, vulcões estão localizados no encontro de placas tectônicas, nas falhas criadas entre placas. São portanto, eles também, a representação da emergência, do que permite vir à tona o que não pode mais ficar contido sob camadas profundas. Voltando à sexualidade simbolizada ou não por vulcões, não seria ela desencadeadora do criativo?
Tags: arte-educação




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