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26/04/2009. HELIO RODRIGUES
A arte tem uma estreita ligação com os contrários e deles se alimenta para desenvolver seus processos e produzir registros. Por sua intimidade com os opostos, experiências artísticas oferecem contrapontos fundamentais para tudo que tende a se constituir objetivo, trazendo a oportunidade e o exercício de um olhar sujeitado, filtrado pela opinião, sensação e sensibilidade do próprio indivíduo que a exerce ou a contempla. Objetivos, em pouco tempo perdem suas funções e são descartados. Infelizmente, no entanto, eles se tornaram uma prioridade social e essa prioridade está cada vez mais disseminada nos lares e na maioria das instituições educacionais. A importância que a cultura capitalista deposita no objeto como meta, além de ser a base do consumo, tem se tornado o princípio fundamental para a formação e razão de vida dos indivíduos e é a meu ver por isso, o grande responsável pelo crescimento da frustração, da angustia e da depressão em adultos e crianças imobilizadas pela sensação de incompetência. Metas são sempre “objetos a conquistar” ou sujeitos transformados em objetos de conquista. Idealizações que dissociam cada vez mais o homem de sua essência (sensibilidade, identidade, sensação, opinião, sentimento...), além disso, as metas estão sempre comprometidas com inúmeras variáveis nunca consideradas, como por exemplo: os desejos individuais, as diferentes capacidades, os diferentes talentos encontrados em cada um e que podem ou não tornar apto um indivíduo e suas diferenças a atingir as tais metas propostas. Há uma previsibilidade nos objetivos que é vista como um “porto seguro” a ser alcançado e uma imprevisibilidade no processo, que, apesar de se constituir um excelente terreno para a criação, torna-se a cada dia um território de maior desinteresse, consumidor de tempo e por isso apenas produtor de expectativa, ansiedade e frustração. Nos moldes atuais, quando se cria um objetivo, seja ele qual for, vive-se exclusivamente a expectativa de sua conquista e pouco se observa ou se aproveita do processo vivido até a sua realização. Estranho, se pensar que é exatamente para os processos, mesmo quando experimentados de maneira ansiosa, que é dispensado o maior tempo de vida e mesmo assim é rejeitado. A super valorização do objeto tornou inevitável e consequente a desvalorização do sujeito (a pessoa). Não é por acaso que se multiplicam os mitos inalcançáveis, perseguidos por “paparazzis”, a exposição de “pessoas-objeto” na mídia, como é o caso dos “big brothers” e outras invasões de privacidade, quase sempre permitidas, em prol da conquista da “coisa”. Sem nos darmos conta, tudo vem se “coisificando”. Pessoas comuns se disponibilizam para o consumo como também o fazem as “coisas-celebridades”, algumas por inteiro outras em postas: em forma de cabelos, bundas, peitos, unhas, músculos e caras. Quais são verdadeiramente os nossos desejos e quais são os desejos da cultura de consumo que nos envolve? É preciso embaçar o foco que vem sendo propagandeado como recurso de “conquista”. Sem uma visão tão precisa e clara para o futuro, se consegue mais intensidade para viver o presente. O foco embaçado é uma preciosa ferramenta para se viver a arte e com menos ansiedade a vida.
Tags: arte-educação






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